Regras de Comércio

Governo já finaliza plano de contingência e tenta acordo com o México

jul, 24, 2025 Postado porSylvia Schandert

Semana202531

Em meio à dificuldade de ampliar o leque de interlocutores americanos e à imprevisibilidade que o próprio presidente Donald Trump impõe aos negociadores dos Estados Unidos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve receber na semana que vem o plano de contingência para mitigar o tarifaço previsto para o dia 1º agosto. Segundo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a área técnica do governo concluiu o desenho das medidas. Em outra frente, Lula decidiu enviar em agosto uma missão ao México para ampliar o acordo comercial entre os dois países.

O plano de contingência está sendo elaborado a partir dos parâmetros definidos por Haddad e pelo vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), Geraldo Alckmin. Depois de darem aval às medidas, elas ainda precisarão da validação do ministro da Casa Civil, Rui Costa, e do chanceler, Mauro Vieira, antes de serem levadas a Lula, contou Haddad a jornalistas, acrescentando que a data do eventual anúncio do plano é uma decisão política de Lula. “A área técnica dos três ministérios envolvidos [Fazenda, Indústria e Itamaraty] vai me apresentar amanhã [hoje] os detalhes. Provavelmente semana que vem nós devemos levar para o presidente.”

Segundo o ministro, o tema está muito concentrado na assessoria da Casa Branca, daí a dificuldade de entender melhor qual vai ser o movimento dos EUA. Mas Haddad ainda vê espaço para que o Brasil consiga negociar, inclusive porque houve “boas surpresas em relação a outros países nos últimos dias”, que conseguiram renegociar as tarifas anunciadas por Trump.

“Nós podemos chegar à data de 1º de agosto com algum aceno e alguma possibilidade de acordo, mas, para haver acordo, precisa haver duas partes sentadas à mesa para chegar a uma conclusão”, declarou Haddad. “Não dá para antecipar um movimento que não depende só de nós, mas o Brasil nunca saiu da mesa de negociação.”

Nos bastidores, o prazo cada vez mais apertado para o início do “tarifaço” de 50% para os produtos exportados para os Estados Unidos tem elevado a preocupação dentro do governo. O objetivo é encontrar uma solução o quanto antes, mas o lado brasileiro acusa os americanos de não estarem demonstrando a mesma vontade. Até o momento, não houve qualquer sinalização de que os americanos vão aceitar a proposta brasileira ou recuar do anúncio feito pelo presidente dos EUA.

Nos últimos dias, interlocutores relataram ao Valor que, como os Estados Unidos continuam sem um embaixador no Brasil, o Palácio do Planalto não tem pessoas com credenciais apropriadas a quem recorrer no território brasileiro. Atualmente, a representação americana em Brasília é chefiada pelo encarregado de negócios do país, Gabriel Escobar.

Quando questionada pelas autoridades brasileiras sobre o assunto, a Embaixada dos Estados Unidos recomenda, por exemplo, que sejam procurados integrantes do chamado Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), órgão americano responsável por esse tipo de contenda comercial. Procurada pelo Valor, a embaixada americana não comentou.

Além disso, o Planalto está esbarrando também na dificuldade de entender quais auxiliares de Trump realmente têm carta branca para tratar do caso. O governo brasileiro procurou, desde o início da crise, diversos interlocutores do chefe do Executivo americano para uma conversa mais direta sobre o tarifaço. Apesar disso, por repetidas vezes, ouviu que esses assessores não estariam autorizados a conduzir essas conversas e que o assunto está sendo gerido pela própria Casa Branca.

Na entrevista a jornalistas, Haddad não detalhou as medidas em discussão. Na segunda-feira, ele ponderou que o plano não necessariamente irá implicar em gasto primário. Existe, por exemplo, a expectativa de crédito emergencial a setores afetados pelo tarifaço. Neste caso, o desafio do governo é garantir que apenas as empresas realmente atingidas possam acessar essas linhas e outros benefícios, assim como foi feito após as inundações que atingiram o Rio Grande do Sul.

Em outra frente, o governo atua no front internacional. Na noite dessa quarta-feira, Lula conversou por telefone com a presidente do México, Claudia Sheinbaum. Ele sugeriu que os países aprofundem as relações “econômicas e comerciais” por conta do “momento de incertezas”.

Além disso, o presidente brasileiro defendeu dar início às negociações para ampliar o acordo comercial Brasil-México. A expectativa é que as tratativas em torno do acordo entre ambos os Estados avancem já a partir de meados de agosto, quando o vice-presidente Geraldo Alckmin e uma comitiva de empresários brasileiros irão ao país.

Por meio de nota, o Planalto informou que a negociação em torno da melhoria no acordo comercial Brasil-México pode favorecer segmentos importantes da economia dos dois países. “Como resultado da visita [de Alckmin], Lula propôs o início de negociações para ampliar acordo comercial Brasil-México, que favoreça a expansão do fluxo comercial entre os dois países. A presidenta Claudia e o presidente Lula destacaram os setores da indústria farmacêutica, agropecuária, de etanol, biodiesel, aeroespacial, bem como de inovação e educação como áreas estratégicas na relação bilateral”, diz o texto.

Desde que Trump anunciou o “tarifaço”, o Brasil deu início a uma corrida por novos acordos de livre comércio com a comunidade internacional. A ideia é usar a presidência pro-tempore do Brasil à frente do Mercosul – que vai até dezembro – para buscar países interessados em novos tratados comerciais, no mesmo molde do que foi feito em relação à União Europeia.

Segundo fontes, o México é um dos mercados que demonstraram interesse nesse tipo de acordo. Como parte dessa ofensiva, o Brasil também já tem mapeado uma série de outros países interessados nesse tipo de negociação. A lista é encabeça pelo Canadá, país vizinho aos Estados Unidos, mas traz também Emirados Árabes Unidos, Coreia do Sul, Indonésia e Vietnã.

A inclusão do Canadá se deve ao fato de que Lula teria recebido uma sinalização positiva do primeiro-ministro do país, Mark Carney, na época do G7. “O Canadá foi explícito em dizer que quer reduzir dependência do mercado americano e que o Mercosul é parceiro ideal”, disse um interlocutor.

Sem citar Trump nominalmente, o Brasil também reclamou na Organização Mundial do Comércio (OMC) das tarifas. Neste caso, a avaliação de fontes do governo é que o movimento é necessário e simbólico, diante do fato de que o Brasil é grande defensor do sistema multilateral. Mas dificilmente renderá frutos concretos, uma vez que a OMC está enfraquecida.

Fonte: Valor Econômico

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