Importações de medicamentos atingem US$ 6,5 bilhões e ampliam déficit farmacêutico do Brasil

jul, 01, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202627

O crescimento das importações de medicamentos para o Brasil vem sendo impulsionado pela expansão do mercado de remédios para perda de peso, pelas limitações da indústria nacional em inovação, pelo envelhecimento da população e pela ampliação da oferta de medicamentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), segundo economistas e representantes do setor farmacêutico.

A tendência reflete o atraso tecnológico do país em um cenário em que a inovação farmacêutica, tanto incremental quanto disruptiva, acelerou significativamente após a pandemia de Covid-19.

Entre janeiro e maio de 2026, as importações de medicamentos somaram US$ 6,53 bilhões, alta de 14,4% em relação ao mesmo período de 2025. O avanço ficou muito acima do crescimento de 3,2% registrado pelas importações totais brasileiras.

A participação dos medicamentos no total das importações brasileiras também vem aumentando de forma consistente. Neste ano, eles representam 5,6% das compras externas do país, ante 5,1% em igual período de 2025, 4,9% em 2024 e apenas 3,9% em 2019.

Em todo o ano de 2025, o Brasil importou US$ 14,2 bilhões em medicamentos, aumento de 18% sobre 2024, quando o crescimento havia sido de 12,1%. Em 2023, a expansão foi de 11,4%, marcando três anos consecutivos de crescimento de dois dígitos. Antes disso, esse comportamento só havia sido observado em 2021, durante a pandemia, quando as importações dispararam 57,5%.

Os dados de cargas conteinerizadas obtidos pela Datamar mostram uma alta de 4,6% na importação de medicamentos do Brasil, atingindo a marca de 5.066 TEUs no acumulado de janeiro a abril de 2026. Confira abaixo uma comparação com o mesmo período dos últimos anos:

Importação de medicamentos | Jan-Abr | 2022 – 2026 | TEUs

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)

Entre 2011 e 2020, as compras externas oscilaram entre US$ 6 bilhões e US$ 7 bilhões por ano, aproximadamente metade do valor registrado em 2025.

Envelhecimento da população amplia demanda

Segundo Reginaldo Arcuri, diretor-presidente do Grupo FarmaBrasil, o envelhecimento da população e a expansão da oferta de medicamentos pelo SUS estão aumentando a demanda por produtos de maior valor agregado, muitos deles ainda sem produção nacional.

“Existe uma demanda crescente por medicamentos mais avançados para uma população cujo perfil etário se aproxima cada vez mais do observado nos países desenvolvidos, embora o Brasil ainda apresente baixa renda per capita”, afirmou.

Dados do IBGE mostram que a população com 40 anos ou mais passou de 37,1% no primeiro trimestre de 2017 para 43,9% no mesmo período deste ano.

Para Walter Cintra Ferreira Junior, médico sanitarista e professor da FGV EAESP, ampliar o acesso gratuito a medicamentos é fundamental diante do envelhecimento da população.

“Não basta garantir consultas médicas ou procedimentos. O envelhecimento acelerado torna as doenças crônicas um dos principais desafios da saúde pública. Sob a ótica da economia da saúde, investir em medicamentos como política pública é muito mais eficiente.”

Limitações da indústria nacional

Arcuri destaca que a crescente demanda representa uma oportunidade para a indústria farmacêutica brasileira, mas também evidencia limitações estruturais do setor.

Segundo ele, o país enfrenta dificuldades tanto na inovação tecnológica quanto na produção em larga escala de determinados medicamentos, além de restrições de financiamento para novos investimentos.

Medicamentos para emagrecimento lideram vendas

Entre os cinco medicamentos mais vendidos no varejo brasileiro entre 2021 e 2025, quatro não são fabricados no Brasil.

Os medicamentos para emagrecimento Ozempic, Wegovy e Mounjaro ocupam, respectivamente, a primeira, terceira e quinta posições do ranking.

O segundo medicamento mais vendido é o Forxiga, utilizado no tratamento de diabetes, insuficiência cardíaca e doença renal. Apenas sua embalagem é produzida no Brasil. Desde fevereiro de 2025, pacientes elegíveis podem obtê-lo gratuitamente pelo programa Farmácia Popular.

O único medicamento produzido integralmente no país entre os cinco mais vendidos é o antidiabético Glifage XR.

Exportações seguem estagnadas

Enquanto as importações avançam rapidamente, as exportações brasileiras de medicamentos permanecem praticamente estáveis.

Entre janeiro e maio, as vendas externas somaram US$ 499,2 milhões. Desde pelo menos 2017, elas permanecem próximas de US$ 450 milhões a US$ 500 milhões no mesmo período do ano.

Em bases anuais, as exportações também se mantêm próximas de US$ 1 bilhão há cerca de uma década.

Como consequência, o déficit da balança comercial de medicamentos atingiu US$ 13,1 bilhões em 2025, após registrar US$ 11 bilhões em 2024. Em 2019, esse déficit era de US$ 5,9 bilhões.

Segundo Rafael Cagnin, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), o déficit reflete o atraso tecnológico do país.

“Esse déficit comercial é resultado da defasagem tecnológica da indústria farmacêutica brasileira. Como a inovação acelerou após a pandemia, novos produtos continuam ampliando essa diferença, como ocorre atualmente com os medicamentos para emagrecimento.”

Biotecnologia ganha importância

Cagnin afirma que as mudanças demográficas também aumentam a demanda por biofármacos, como anticorpos monoclonais utilizados no tratamento de doenças crônicas relacionadas ao envelhecimento, entre elas câncer e demência.

“São medicamentos cuja capacidade de produção nacional ainda é muito limitada”, afirmou.

Déficit em alta tecnologia

Ao lado dos setores aeronáutico e eletrônico, a indústria farmacêutica integra o grupo de alta tecnologia da indústria de transformação brasileira, segmento que apresenta déficit estrutural na balança comercial.

Dados do IEDI mostram que, no primeiro trimestre de 2026, os medicamentos responderam por 34% das importações brasileiras de produtos de alta tecnologia, contra 25,9% em 2010.

Nas exportações desse segmento, a participação dos medicamentos caiu de 26,5% em 2022 para 15% neste ano.

O aumento das importações concentra-se principalmente em produtos imunológicos, vacinas, terapias biológicas, medicamentos oncológicos e produtos especializados de biotecnologia.

Segundo Cagnin, as limitações brasileiras não se restringem aos medicamentos mais inovadores.

Mesmo na produção de medicamentos genéricos, o país conseguiu desenvolver capacidade industrial, mas não toda a cadeia produtiva.

Dependência de insumos importados

Arcuri destaca que a política de medicamentos genéricos foi importante para ampliar o acesso da população aos tratamentos e reduzir preços.

Entretanto, a indústria brasileira ainda depende fortemente da importação de IFAs (ingredientes farmacêuticos ativos), utilizados na fabricação dos medicamentos.

Segundo ele, algumas empresas já verticalizaram parte da produção, fabricando seus próprios insumos, mas a maior parte dos IFAs continua sendo importada.

Globalmente, a China lidera a produção de ingredientes farmacêuticos ativos, enquanto a Índia é uma das principais fornecedoras de medicamentos genéricos acabados.

Necessidade de política industrial

Para Arcuri, o Brasil precisa de uma política coordenada voltada ao desenvolvimento da inovação farmacêutica.

Segundo ele, países como Estados Unidos, membros da OCDE, além de China, Índia e Coreia do Sul, mantêm políticas robustas de incentivo à inovação, à produção industrial, à formação de profissionais e ao fortalecimento da regulação do setor.

Principais fornecedores do Brasil

Entre janeiro e maio, os principais países fornecedores de medicamentos para o Brasil foram:

Estados Unidos: 24%

Alemanha: 15%

Suíça: 9%

Irlanda: 8%

Itália: 7%

Fonte: Valor International

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