Automotivo

Indústria argentina de autopeças sente impacto do choque econômico de Milei

maio, 05, 2026 Postado porGabriel Malheiros

Semana202619

Dentro de uma pequena fábrica familiar de autopeças nos arredores de Buenos Aires, as linhas de produção estão paradas.

A planta opera abaixo da capacidade enquanto a Suspenmec tenta enfrentar a concorrência de uma enxurrada de peças importadas mais baratas, muitas delas vindas da China, depois que a Argentina flexibilizou de forma significativa as restrições ao comércio exterior.

As vendas da empresa, que fabrica 600 tipos de componentes de suspensão, acumulam queda de cerca de 30% neste ano.

As reformas econômicas agressivas promovidas pelo presidente Javier Milei — entre elas o corte de barreiras à importação e a valorização do peso — ajudaram a estabilizar a economia. Para muitas pequenas e médias indústrias, porém, historicamente protegidas da concorrência externa, o ajuste tem sido rápido e doloroso.

As importações de autopeças cresceram 11,6% em 2025 sobre o ano anterior, para cerca de US$ 10,32 bilhões, segundo a entidade setorial AFAC. As exportações, concentradas principalmente no mercado brasileiro, avançaram apenas 1,2%, para cerca de US$ 1,28 bilhão.

Confira a seguir o histórico das exportações de autopeças por via marítima da Argentina entre janeiro de 2023 e março de 2025, segundos os dados da Datamar:

Exportação de Autopeças | Argentina | Jan 2023 – Mar 2026 | TEUS

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)

Já as importações vindas da China saltaram 80,9% na comparação anual, para US$ 1,46 bilhão, embora o Brasil tenha permanecido como principal fornecedor.

“É preocupante. Estamos sentindo o impacto das importações livres de tarifas de tantas marcas”, disse Lucas Panarotti, sócio da Suspenmec, ao lado de máquinas paradas na fábrica.

Outros fabricantes de autopeças, entre eles a sueca SKF e a americana Dana, fecharam algumas de suas unidades na Argentina.

As dificuldades enfrentadas pela indústria local também aparecem na queda da produção de autopeças, que recuou 22,5% nos dois primeiros meses deste ano em relação ao mesmo período de 2025, segundo dados do instituto oficial de estatísticas, o Indec, que não informou os volumes absolutos.

A produção de veículos, que havia alcançado 490 mil unidades em 2025, caiu 19% no primeiro trimestre de 2026 na comparação com igual período do ano anterior.

“Este é um ponto de virada. Muito rapidamente passamos a operar em um novo ecossistema, no qual a abertura da economia e do comércio internacional passou a pressionar as empresas industriais argentinas”, afirmou Nicolás Ballestrero, CEO do Grupo Corven, que também vem registrando queda na produção e nas exportações neste ano.

Especialistas afirmam que a indústria automotiva argentina precisará se especializar e ampliar as exportações para se adaptar ao novo cenário. Andrés Civetta, economista especializado no setor industrial da consultoria Abeceb, estima que o país poderia exportar futuramente cerca de 400 mil veículos comerciais leves por ano, acima das aproximadamente 280 mil unidades embarcadas no ano passado, sobretudo para o Brasil e outros mercados da América Latina.

Equilíbrio delicado para Milei

A situação do setor de autopeças reflete uma tendência mais ampla, em que grandes exportadores de commodities vêm sendo beneficiados, enquanto boa parte da indústria voltada ao mercado interno enfrenta dificuldades.

Embora o superávit comercial da Argentina tenha subido para US$ 2,5 bilhões em março, 24.180 empresas — cerca de 5% do total em operação — fecharam as portas entre novembro de 2023, pouco antes da posse de Milei com sua agenda liberal de direita, e janeiro deste ano, segundo a consultoria Fundar.

Dados do Indec mostram que a atividade econômica caiu 2,1% em fevereiro na comparação anual. Em contrapartida, setores como mineração, agricultura e pesca registraram altas entre 8% e 15%. A indústria de transformação, porém, recuou 8,7%, enquanto o comércio varejista caiu 7%.

Fonte: Reuters

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