Economia

Mercados emergentes compensam demanda fraca nos EUA para gigantes globais de bens de consumo

fev, 11, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202607

As maiores multinacionais de bens de consumo do mundo vêm registrando resultados fracos nos Estados Unidos. Ainda assim, a América Latina — especialmente Brasil e México — e a Ásia, com destaque para China e Índia, têm ajudado a sustentar os lucros, enquanto a classe média americana perde poder de compra e intensifica a busca por descontos.

Na Ásia, o avanço é impulsionado principalmente por maior volume de vendas. Já no Brasil e no México, o crescimento reflete sobretudo aumentos de preços e ajustes de portfólio das marcas líderes, segundo balanços do quarto trimestre (outubro a dezembro) e teleconferências acompanhadas pelo Valor.

Executivos da Procter & Gamble, PepsiCo e Colgate-Palmolive, além da Unilever em apresentação de dezembro ao J.P. Morgan, descreveram um ambiente de consumo nos EUA marcado por fraqueza ou desaceleração.

A Unilever foi a única a citar risco de instabilidade política no Brasil em sua apresentação de dezembro. A companhia divulga seus resultados do quarto trimestre na quinta-feira (12).

“Precisamos fazer os EUA crescerem mais rápido”, disse Shailesh Jejurikar, CEO da Procter & Gamble, no fim de janeiro. A empresa é a terceira maior do setor em vendas trimestrais, atrás de Nestlé e PepsiCo.

O diretor financeiro Andre Schulten afirmou que o segundo semestre de 2025 foi desafiador, com mercados consumidores mais fracos e concorrência intensa. Segundo ele, o principal ponto positivo foi o desempenho fora dos EUA.

“Na América Latina, crescemos 8% no quarto trimestre; a Europa avançou 3%. A China cresceu 3%, e Ásia, Oriente Médio e África, 2%”, disse, destacando Brasil e México.

A P&G, dona de 65 marcas como Downy, Oral-B, Gillette e Pampers, observa um descompasso entre mercados emergentes e os EUA. A empresa citou reformulações no México (amaciante) e no Brasil (cuidados com o cabelo), iniciativas que começam agora a ser implementadas no mercado americano.

A companhia também reorganizou operações na América Latina e alterou o modelo de negócios na Argentina, concentrando esforços em México e Brasil. Segundo Jejurikar, o Brasil cresceu 9%, acima da média do mercado.

A Coca-Cola informou que, na América Latina, as vendas cresceram 10% no quarto trimestre, com alta de 4% em volume e 6% em preço/mix. Na América do Norte, as vendas subiram 5%, com volume em alta de 1%.

Nos EUA, o cenário foi impactado pelo “shutdown” do governo entre outubro e novembro, que atrasou pagamentos e reduziu benefícios, afetando a demanda. Ainda assim, as empresas afirmam que o consumo já estava pressionado.

A Colgate-Palmolive também sentiu os efeitos do shutdown, mas avalia que o mercado americano segue lento. A empresa mencionou ainda volatilidade geopolítica na América Latina.

“O ambiente geopolítico é volátil, especialmente na América Latina, e o mercado dos EUA continua lento”, disse o CEO Noel Wallace. Segundo ele, volume é o principal problema nos EUA, com quedas em diversas categorias.

Na América do Norte, as vendas líquidas da Colgate caíram 1,5% no quarto trimestre, com volume recuando 2,3%. Na América Latina, as vendas cresceram 12,8%, com volume em alta de 2,3% e preços subindo 4,2%.

Brasil e México registraram crescimento forte em cuidados bucais, pessoais e domésticos, embora a empresa não detalhe números por país.

No Brasil, dados do varejo indicam desaceleração da demanda desde o segundo semestre de 2025, com volumes fracos em supermercados e atacarejos, diante do aumento do endividamento das famílias.

Segundo a NielsenIQ, o faturamento em supermercados e atacarejos cresceu 8,1% em 2025, enquanto o volume subiu 1,9%.

A Unilever destacou riscos no Brasil e em outros mercados regionais. O CEO Fernando Fernandez afirmou que a empresa havia elevado demais os preços no segmento de lavanderia no Brasil e iniciou ajustes. Ele também citou queda nas remessas de mexicanos nos EUA e retração na Argentina.

“Foi muito difícil precificar no Brasil, dada a volatilidade cambial. Tivemos de reduzir alguns preços”, disse.

A PepsiCo, por sua vez, informou que reduzirá preços em até 15% nos EUA, compensando com ganhos de produtividade. O CEO Ramon Laguarta afirmou que consumidores de renda média e baixa nos EUA enfrentam limitações e que a empresa precisa fazer parte do dia a dia deles.

“Fora dos EUA, o cenário é diferente”, disse. “Estamos otimistas com o México, vemos tendências positivas na China e bom ambiente no Oriente Médio. O Brasil está neutro.”

De outubro a dezembro, a América do Norte registrou as maiores quedas de volume da PepsiCo, enquanto a América Latina caiu 1%. Os aumentos de preços na região chegaram a 6%.

Para enfrentar os desafios nos EUA, as empresas reforçam inovação e estratégias de premiumização. A Colgate afirmou preparar um pipeline mais forte de inovação para 2026. A PepsiCo aposta em porções menores e novos produtos com fibra e proteína.

Colgate informou não ter comentários adicionais além dos resultados divulgados. PepsiCo, Unilever e P&G não comentaram.

Fonte: Valor International

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