Automotivo

Montadoras vão propor incentivos fiscais vinculados à produção local

jun, 12, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202624

As montadoras iniciaram discussões com o governo para ajustar programas já existentes do setor — ou incorporar novas medidas — de forma que a tributação passe a refletir o nível de conteúdo local dos veículos. Pela proposta, automóveis com maior participação de componentes produzidos no Brasil teriam uma carga tributária menor, enquanto aqueles com menos peças nacionais seriam mais taxados.

O debate ocorre em meio ao crescimento da participação dos veículos fabricados na China no mercado brasileiro e busca identificar alternativas para enfrentar a concorrência crescente dos modelos importados.

Representantes da indústria avaliam diferentes caminhos. Uma das possibilidades é alterar o programa Mover, atual política federal para o setor automotivo. Outra alternativa seria aproveitar a implementação do Imposto Seletivo, prevista para entrar em vigor em 1º de janeiro, para revisar as regras de tributação.

Criado no âmbito da reforma tributária, o Imposto Seletivo — conhecido como “imposto do pecado” — tem como objetivo aumentar a tributação de produtos considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente. Os veículos estão entre os itens que deverão ser alcançados pela medida. Executivos do setor, porém, defendem que os compromissos com a redução de emissões sejam acompanhados por incentivos à produção local.

Enquanto isso, a tarifa de importação para veículos híbridos e elétricos subirá para a alíquota máxima de 35% a partir de 1º de julho. Importadores aceleraram os embarques antes da elevação da taxa. Dados do setor mostram que os estoques de veículos importados somam atualmente cerca de 300 mil unidades, ante pouco mais de 70 mil veículos produzidos localmente.

Segundo Ciro Possobom, presidente da Volkswagen no Brasil, a necessidade de reduzir esses estoques elevados está provocando cortes de preços que aumentam a pressão sobre os fabricantes nacionais. Ele também destacou que os veículos importados pelo sistema CKD (*completely knocked down*), montados a partir de kits de componentes importados, continuarão sujeitos a uma tarifa de importação de apenas 14% até janeiro, percentual que considera baixo e que amplia a pressão sobre a indústria local.

Para Possobom, a combinação de grandes estoques de veículos importados com mais seis meses de uma tarifa reduzida para CKD tornará tanto o segundo semestre deste ano quanto o primeiro semestre de 2027 períodos difíceis para o setor.

A concorrência das montadoras chinesas dominou as discussões na quarta-feira (10) durante o segundo dia do evento Anfavea Visions, promovido pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Outros temas abordados incluíram combustíveis alternativos, conectividade e os impactos dos avanços da inteligência artificial na indústria automotiva.

Cultura

À frente das operações brasileiras de uma empresa alemã, Possobom afirmou que enfrenta atualmente o desafio de reformular conceitos culturais dentro de uma multinacional. Segundo ele, disciplina e busca pela perfeição são características tradicionais dos alemães, enquanto as empresas chinesas se destacam pela velocidade.

“Como CEO, preciso combinar a disciplina alemã com a velocidade chinesa e a criatividade brasileira”, afirmou.

De acordo com o executivo, a Volkswagen do Brasil está se preparando para a era da eletrificação, mas sem abrir mão do desenvolvimento do “produto certo”. Para acelerar essa transição, a montadora poderá aproveitar conhecimentos já desenvolvidos em outros mercados, como Europa e China, onde a companhia opera 36 fábricas. Uma das possibilidades seria adaptar ao mercado brasileiro projetos desenvolvidos no exterior.

Questionado sobre a possibilidade de a Volkswagen concluir que importar veículos é mais barato do que produzi-los no Brasil, Possobom reconheceu que esse risco existe. Ao mesmo tempo, afirmou que, como alguém que se considera “um produto da indústria brasileira”, não acredita que esse cenário seja provável, especialmente para uma empresa que está executando um ciclo de investimentos de R$ 16 bilhões entre 2024 e 2028.

“Eu acredito em grandes volumes de vendas. E, para alcançar isso, é preciso ter indústria e produção local. Isso funciona como proteção contra a volatilidade cambial. Qualquer ruptura que afete o mercado de câmbio pode fazer as importações desabarem”, afirmou.

Fonte: Valor International

Sharing is caring!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


O período de verificação do reCAPTCHA expirou. Por favor, recarregue a página.