Regras de Comércio

Nova tarifa dos EUA pode atingir até 45% das exportações brasileiras

jun, 03, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202623

Uma nova tarifa de 25% colocada em consulta pública pelos Estados Unidos na segunda-feira (1º) pode afetar até cerca de 45% das exportações brasileiras para o mercado americano, dependendo da metodologia utilizada. Entre as estimativas levantadas pelo Valor, o governo brasileiro apresenta a projeção mais moderada, de 21%, embora reconheça que os setores atingidos sofreriam “grandes perdas”.

Representantes do governo afirmam não acreditar que a proposta se transforme efetivamente em tarifa, mas especialistas observam que, ao contrário das medidas impostas em 2025 pelo presidente dos EUA, Donald Trump, as tarifas decorrentes desta iniciativa seriam mais difíceis de contestar. Além disso, outras investigações em andamento podem resultar em novas barreiras comerciais.

A nova tarifa proposta pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) baseia-se na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O relatório, que concluiu uma investigação aberta contra o Brasil em julho de 2025, argumenta que determinadas políticas e práticas brasileiras relacionadas ao comércio digital — incluindo o Pix —, propriedade intelectual, combate à corrupção e acesso ao mercado, entre outros temas, prejudicam interesses dos Estados Unidos.

A proposta foi submetida a consulta pública, o que significa que a tarifa de 25% não entra em vigor imediatamente. O processo abre prazo para que empresas, entidades e demais interessados apresentem comentários. Uma audiência pública está marcada para 6 de julho, em Washington.

Atualmente, produtos brasileiros já estão sujeitos a uma tarifa de 10%, aplicada globalmente por Trump após decisão da Suprema Corte dos EUA que invalidou um amplo pacote tarifário. Essa medida permanece válida até o final de julho.

Welber Barral, sócio da BMJ e do escritório Barral Parente Pinheiro, afirma que a estratégia para empresas e setores afetados é apresentar petições demonstrando o impacto da tarifa sobre a produção e os preços nos Estados Unidos. Segundo ele, as chances de sucesso aumentam quando a defesa é feita em conjunto com importadores americanos, capazes de detalhar os efeitos da medida sobre seus custos e a importância do fornecimento brasileiro.

Desafios jurídicos

A advogada Vera Kanas, especialista em comércio internacional e sócia da VK Law, destaca que, além deste processo, o Brasil está entre os 60 países alvo de outra investigação da Seção 301 relacionada à importação de produtos oriundos de países que supostamente não combatem adequadamente o trabalho forçado.

Segundo Kanas, as tarifas propostas com base na Seção 301 são mais difíceis de reverter do que a tarifa ampla de 40% a 50% aplicada às importações brasileiras no ano passado sob a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA). A Seção 301, afirma, possui uma base legal mais consolidada. “Desta vez, diferentemente do que ocorreu com a IEEPA, não deve haver empresas americanas importando produtos brasileiros na expectativa de solicitar posteriormente reembolso dos valores pagos”, observou.

O relatório do USTR prevê que a nova tarifa não seja aplicada a aeronaves e peças, suco de laranja, alguns alimentos como café e carnes, celulose, determinados minerais, fertilizantes e minerais considerados críticos e estratégicos.

O Valor identificou 986 itens na lista de exceções, classificados por códigos de seis dígitos do Sistema Harmonizado. Desses, o Brasil exportou 666 produtos para os Estados Unidos em 2024, antes dos efeitos da atual política tarifária do governo Trump.

Embora o número de produtos isentos seja superior aos 433 itens excluídos da tarifa de 40% a 50% anunciada no ano passado, o valor financeiro coberto pelas exceções é menor, já que determinados tipos de ferro-gusa bruto não foram incluídos desta vez.

Com base nas exportações de 2024, o Valor estima que a nova medida poderia atingir 45,8% dos embarques brasileiros para os EUA, equivalentes a US$ 18,5 bilhões.

O relatório da Seção 301 não afeta produtos já submetidos às tarifas setoriais aplicadas por razões de segurança nacional sob a Seção 232 da legislação americana, que abrange itens como aço, alumínio e seus derivados. Ambos os processos seguem em paralelo.

Estimativas de impacto

A Câmara Americana de Comércio estima que a nova tarifa possa atingir aproximadamente US$ 15 bilhões em exportações brasileiras para os Estados Unidos, o equivalente a 35,5% dos embarques do país. Os setores potencialmente mais afetados seriam indústria de base, máquinas e equipamentos, agronegócio, produtos florestais e alimentos processados. O ferro-gusa aparece como o produto mais exposto, com US$ 1,54 bilhão em exportações sujeitas à tarifa.

Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, a medida deve impactar principalmente a indústria de transformação, alinhando-se ao objetivo de Trump de reindustrializar os Estados Unidos. Ele estima que cerca de 27% das exportações brasileiras para os EUA em 2025, equivalentes a US$ 10,1 bilhões, ficariam expostas à nova tarifa.

Vale avalia que a medida pode acelerar a redução da participação dos EUA nas exportações brasileiras e reforçar a aproximação comercial entre Brasil e China. Em 2024, os Estados Unidos absorveram 12% das exportações brasileiras; essa participação caiu para 10,8% em 2025. No mesmo período, a participação chinesa aumentou de 28% para 28,7%.

Segundo o economista, a implementação da tarifa parece provável, mesmo com o processo de consulta pública ainda em andamento. Ele argumenta que o governo americano apresentou justificativas consideradas subjetivas, como desmatamento, propriedade intelectual e o próprio Pix. “O sistema de pagamentos instantâneos está integrado à economia brasileira, reduziu custos de crédito, ampliou a inclusão bancária e não há caminho de volta”, afirmou.

Em tom mais otimista, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou que a medida poderia atingir apenas 21% das vendas brasileiras para os Estados Unidos. Segundo ele, 54% das exportações ao mercado americano estariam livres da tarifa ampla e outros 25% já se enquadram na Seção 232. O ministro citou o setor de máquinas e equipamentos entre os mais vulneráveis, com possíveis impactos significativos sobre emprego, renda e atividade industrial, caso a proposta seja efetivamente implementada — cenário que, segundo ele, o governo não acredita que ocorrerá.

José Ronaldo Souza Junior, CEO da Quantivis Analytics, calcula que a medida baseada na Seção 301 poderia afetar até 43,7% das exportações brasileiras para os Estados Unidos, considerando dados de 2025. Em valores, isso representa cerca de US$ 16,5 bilhões. Ele ressalta que as estimativas envolvem margens de imprecisão devido às diferenças entre as classificações tarifárias utilizadas pelo USTR, de oito dígitos, e o padrão Mercosul, de seis dígitos.

Fonte: Valor International

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