Grãos

O que está por trás da alta global dos grãos?

set, 18, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202638

Os agricultores dos Estados Unidos começaram a colher mais uma grande safra de milho, após a colheita abundante do ano passado. Mas essa aparente fartura no maior exportador de milho do mundo esconde um cenário consideravelmente menos confortável para a oferta mundial de grãos.

A previsão é que o consumo global de milho supere a produção em quase 30 milhões de toneladas na temporada 2026/27. Segundo o relatório de Estimativas de Oferta e Demanda Agrícola Mundial do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), divulgado na última sexta-feira, esse seria o maior déficit em mais de três décadas.

As preocupações com a oferta já se refletiram nos preços. Os contratos futuros de milho, trigo e soja subiram significativamente nos últimos meses, com o milho negociado em Chicago registrando uma alta recorde de 16% apenas em agosto, período em que os preços costumam sofrer pressão sazonal.

Por que, então, a oferta global de grãos está ficando mais apertada quando os agricultores americanos produzem tanto?

Parte da resposta está em outras regiões do mundo — e até mesmo fora do mercado de grãos.

Estoques globais de grãos ficam mais apertados

A produção combinada de milho e trigo dos principais países exportadores deverá cair acentuadamente em relação ao ano passado, mesmo com os agricultores americanos iniciando a colheita da segunda maior safra de milho de sua história.

A queda anual projetada para esse grupo de exportadores é a maior em volume desde 1993/94 e a mais acentuada em termos percentuais desde 2012/13, temporada marcada por grandes perdas causadas pela seca nos Estados Unidos.

Embora as perspectivas de safra tenham melhorado recentemente para alguns dos principais exportadores de trigo, isso não eliminou a redução mais ampla da oferta de grãos disponível para exportação. Além disso, considerando todos os países, a produção mundial de trigo, assim como a de milho, também deverá ficar abaixo do consumo em 2026/27.

A disponibilidade para exportação é outra preocupação: o USDA projeta que os estoques combinados de trigo da Rússia e da Ucrânia atinjam o maior nível em 33 anos, enquanto a guerra entre os dois grandes fornecedores continua prejudicando o comércio pelo Mar Negro.

E o desafio pode se estender para além desta temporada.

Grãos perdem espaço na disputa por área

Nos últimos 25 anos, os principais exportadores agrícolas do mundo ampliaram expressivamente o plantio de oleaginosas, enquanto a área destinada aos grãos entre os principais fornecedores ficou estagnada.

A área colhida nos principais países exportadores de oleaginosas e seus derivados em 2026/27 é mais que o dobro da registrada em 2000/01. Já os grandes exportadores de grãos ampliaram sua área em apenas 5%.

Uma análise mais detalhada mostra que a área de milho cresceu substancialmente nesse período, enquanto a de trigo diminuiu. Em outras palavras, a limitação de área não é uniforme entre os grãos, mas o contraste geral com as oleaginosas é evidente.

Ainda assim, a demanda por grãos continua crescendo. Os ganhos de produtividade têm sustentado grande parte desse avanço, deixando menos margem para problemas climáticos nos anos em que a área destinada aos grãos é relativamente pequena.

As oleaginosas estão do outro lado dessa equação. A expansão da área, especialmente no Brasil, tem sido fundamental para o forte crescimento da produção mundial de soja.

Mas, mesmo nesse segmento, o avanço da área pode estar perdendo força.

Brasil pisa no freio

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgou na terça-feira sua primeira projeção para a safra de soja 2026/27, prevendo mais uma colheita recorde no maior exportador mundial. O avanço, porém, deverá ser pequeno.

A expectativa é que os agricultores brasileiros ampliem o plantio de soja no ritmo mais lento em 20 anos, diante de margens menores, crédito caro e custos com fertilizantes, que reduzem o interesse em expandir a área.

Somado a isso está o que especialistas apontam como a possibilidade do El Niño mais forte já registrado, que ameaça a produtividade em Mato Grosso, principal Estado produtor. Nesse cenário, o Brasil pode ficar particularmente vulnerável a uma queda na produção.

O mercado não está acostumado com essa situação. Durante anos, foi possível contar com uma expansão significativa da área brasileira, quase independentemente do que acontecesse em outras regiões, o que frequentemente amenizava o impacto das oscilações anuais de produtividade.

O cenário dos grãos também envolve o Brasil. A Conab elevou expressivamente sua estimativa de consumo doméstico de milho em 2025/26, diante da maior demanda para produção de etanol, deixando uma parcela menor da grande safra disponível para exportação.

Os dados de comércio exterior da Datamar mostram que apesar de quase 21% das exportações de milho do Brasil terem saído pelo Porto de Santos, importantes portos no Arco Norte mostram um crescimento favorável. O Porto de Vila do Conde teve um crescimento interanual de quase 58%, enquanto Santarem cresceu 18% no acumulado do ano.

Confira a seguir o market share dos principais portos exportadores de milho no Brasil:

Exportação de Milho | Jan-Jul 2026 | WTMT

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)

O Brasil deverá colher mais uma safra recorde de milho em 2026/27, mas essa mudança na demanda é um lembrete de que colheitas maiores não se traduzem necessariamente em aumentos equivalentes da oferta exportável.

Há solução em 2027?

Nada disso aponta necessariamente para uma escassez de grãos como a observada em 2012.

Os Estados Unidos ainda dispõem de uma reserva considerável de milho, o Brasil mantém a capacidade de produzir safras recordes e o trigo é colhido em diferentes partes do mundo ao longo de todo o ano.

Mas o ponto central permanece: os estoques globais de grãos estão em uma situação bem menos confortável do que há um ano, e a recente alta dos preços deixa claro que os mercados perceberam isso.

Os preços excepcionalmente baixos do trigo ajudaram a levar os agricultores americanos a apostar no milho e na soja em 2026, reduzindo a área total plantada com trigo ao menor nível já registrado. Desde então, os preços do cereal se recuperaram, e a disputa pela área de plantio do próximo ano já está se intensificando.

Isso pode dificultar um pouco a repetição de uma área tão grande de milho nos Estados Unidos em 2027, justamente quando o equilíbrio entre oferta e demanda global talvez mais precise dela.

Fonte: Reuters

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