Por que um acordo alemão no transporte marítimo alarma o governo de Israel
fev, 19, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202608
A alemã Hapag-Lloyd, a quinta maior empresa de transporte de contêineres do mundo, assinou um acordo para adquirir sua rival israelense Zim Integrated Shipping Services por US$ 4,2 bilhões (€ 3,5 bilhões).
O acordo de fusão foi assinado na segunda-feira, após negociações avançadas. Ele foi aprovado por unanimidade pelo Conselho de Administração da Zim, mas ainda precisa do aval formal do governo de Israel, que detém direitos especiais previstos no estatuto de fundação da empresa.
A empresa combinada passaria a operar uma frota de mais de 400 navios, com capacidade superior a 3 milhões de TEUs, e um volume anual de transporte acima de 18 milhões de TEUs.
A Zim tem sede em Haifa, onde fica o principal porto de Israel, e está listada na Bolsa de Valores de Nova York desde 2021. Como a décima maior empresa de transporte marítimo do mundo, a Zim opera uma rede global de rotas de contêineres com sua frota.
A oferta de US$ 35 por ação representa um prêmio de 58% sobre o preço de US$ 22,20 registrado em 13 de fevereiro de 2026. As ações da Zim dispararam mais de 30% após o anúncio.
Por que a aquisição é tão controversa?
Israel vê a Zim como um ativo estratégico. Além de ser uma companhia comercial de navegação, ela há muito tempo desempenha um papel na logística de emergência e no planejamento de segurança nacional.
De acordo com o centro de pesquisa Who Profits, sediado em Israel, a Zim também exerce um papel fundamental no transporte de remessas de ajuda militar dos Estados Unidos para Israel, com base em um acordo de longa data.
Isso torna o Estado israelense relutante em perder o controle da empresa, especialmente em um momento em que enfrenta múltiplas vulnerabilidades, incluindo o conflito em Gaza, tensões contínuas com o Irã e uma instabilidade regional mais ampla.
O plano da Hapag envolve desmembrar a companhia israelense, separando suas principais operações de transporte de contêineres de uma entidade menor, voltada ao mercado israelense, que seria controlada pelo fundo de private equity doméstico FIMI.
Esse movimento permitiria à Hapag integrar os navios, rotas e contratos comerciais da Zim à sua rede global de transporte marítimo, enquanto a FIMI assumiria os ativos e obrigações remanescentes, frequentemente associados à chamada “golden share” do Estado israelense.
A Hapag afirmou que a nova entidade manteria o nome Zim e contaria com 16 navios modernos destinados a rotas estratégicas.
A estrutura acionária da Hapag inclui participações passivas do Catar (12,3%) e da Arábia Saudita (10,2%), o que levanta preocupações geopolíticas em Israel devido a tensões regionais históricas e aos vínculos percebidos entre o Catar e o grupo militante palestino Hamas.
Qual tem sido a reação em Israel?
O prefeito de Haifa, Yona Yahav, disse à agência Reuters que a Zim é vital para a economia e a segurança de Israel e pediu ao governo que interrompa a transação.
A Hapag sustenta que o desmembramento permitirá ao Estado israelense manter supervisão sobre a governança da Zim, sua capacidade logística em situações de emergência e os serviços marítimos ligados à segurança nacional.
No entanto, a autoridade portuária de Israel classificou a operação como uma “ameaça existencial”, temendo que a divisão da empresa deixe a nova Zim subdimensionada e vulnerável a cortes, sem os lucros provenientes das operações comerciais.
Nesta semana, cerca de 800 dos 1.000 funcionários da Zim realizaram uma greve em oposição à aquisição.
“Não estamos mais permitindo nenhuma atividade”, explicou na terça-feira a representante sindical Ziva Lainer Schkolnik. “Paralisamos vários navios nos portos de Ashdod e Haifa.”
Segundo o sindicato, a nova empresa israelense resultante do desmembramento deverá precisar de apenas cerca de 120 funcionários, o que pode colocar até 900 empregos em risco.
A Hapag negou essa avaliação, afirmando, por meio de um porta-voz, que os empregos na sede da Zim e na área de gestão estão garantidos.
O governo israelense aprovará a aquisição?
Ainda é cedo para afirmar com certeza. No entanto, a ministra dos Transportes de Israel, Miri Regev, adotou uma postura claramente crítica, ameaçando bloquear a venda e determinando uma análise imediata das implicações do acordo.
Regev quer que seu ministério avalie se o governo pode intervir por meio de sua golden share.
Nem o gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu nem os ministérios da Fazenda ou da Economia se posicionaram publicamente sobre a aquisição.
O desmembramento foi concebido para responder às preocupações sobre o papel estratégico da Zim, mas não está claro se isso facilitará o processo de aprovação.
A decisão final exigirá a análise de cerca de uma dúzia de órgãos governamentais, incluindo autoridades antitruste e de investimentos estrangeiros, e deve levar aproximadamente nove meses.
Como a Hapag-Lloyd se beneficiará da aquisição?
A Hapag espera obter sinergias anuais entre € 300 milhões e € 500 milhões por meio da otimização de rotas, redução de custos e ganhos de escala.
O setor de transporte marítimo enfrenta atualmente excesso de capacidade e queda nas tarifas de frete.
Para a empresa sediada em Hamburgo, a aquisição também representaria uma grande expansão estratégica em um momento em que seus próprios resultados estão sob pressão.
A companhia reportou um lucro operacional provisório antes de juros e impostos (EBIT) de € 1 bilhão no exercício de 2025, uma queda acentuada em relação aos € 2,6 bilhões registrados em 2024.
O CEO da Hapag, Rolf Habben Jansen, afirmou esperar que a transação seja concluída até o fim do ano.
No início deste mês, a empresa retomou as viagens pelo Mar Vermelho e pelo Canal de Suez.
Nos últimos dois anos, companhias de navegação haviam desviado suas rotas devido a ataques de rebeldes houthis do Iêmen, que miravam cargueiros com vínculos com Israel em razão da guerra em Gaza.
Fonte: Nik Martin, para a DW
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