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Proteína animal brasileira mira novos mercados para sustentar crescimento, dizem líderes no SIAVS

ago, 06, 2026 Postado porGabriel Malheiros

Semana202632

A demanda global por proteína animal continua abrindo espaço para o Brasil ampliar sua presença no comércio internacional, mas o próximo ciclo de crescimento dependerá cada vez mais da diversificação de mercados, da abertura de novos destinos e da oferta de produtos de maior valor agregado.

A avaliação foi compartilhada por lideranças do setor durante o segundo dia do Salão Internacional de Proteína Animal (SIAVS) 2026, realizado em São Paulo. O evento, que termina nesta quinta-feira (6), reúne as principais cadeias produtivas de aves, suínos, ovos, peixes de cultivo e bovinos do Brasil e da América Latina.

“Nós temos um setor em que, diferentemente de muitos outros, a demanda ainda supera a oferta”, afirmou Miguel Gularte, CEO da MBRF, durante mesa redonda realizada na quarta-feira. O debate também contou com a participação de João Campos, presidente da Seara, e Neivor Canton, diretor-presidente da Aurora Coop.

Em um cenário marcado por mudanças no comércio internacional, tensões geopolíticas e novos movimentos dos grandes compradores globais, os executivos defenderam que o Brasil reúne condições para seguir ganhando espaço no mercado mundial de proteína animal. Para isso, afirmaram, será necessário ampliar o acesso a novos mercados, reduzir a dependência de poucos destinos e avançar na exportação de produtos mais elaborados.

O otimismo é sustentado pelas projeções divulgadas pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Segundo a entidade, a produção brasileira de carne de frango pode crescer até 5,6% em 2026. A carne suína deve avançar até 5%, enquanto a produção de ovos pode subir 4,1%.

As exportações também seguem em trajetória positiva. A expectativa é de alta de até 10,3% nos embarques de carne de frango e de 5,9% nas vendas externas de carne suína. O movimento deve ocorrer em paralelo ao aumento da disponibilidade de alimentos para o consumidor brasileiro e ao crescimento do consumo per capita das três proteínas.

Em 2025, considerando carnes de frango e suína e ovos, o Brasil exportou 6,7 milhões de toneladas, alta de 2,8% em relação a 2024, segundo dados da plataforma Agrostat, do Ministério da Agricultura. Em valor, as vendas externas somaram US$ 13,3 bilhões, avanço de 3,3%.

Para Ricardo Santin, presidente da ABPA e organizador do SIAVS, os números mostram a força de um setor que conseguiu manter o crescimento mesmo em um ambiente externo mais complexo.

“As projeções indicam crescimento da produção e do consumo per capita das três proteínas. Também teremos maior disponibilidade interna de carne de frango e carne suína, simultaneamente ao avanço das exportações”, afirmou.

Crescimento depende de diversificação

Apesar dos indicadores positivos, as lideranças do setor convergiram em um ponto: crescer exigirá depender menos de um único comprador internacional.

Na avaliação de Santin, a menor demanda chinesa por carne suína não representa uma mudança estrutural no mercado, mas uma volta aos níveis observados antes da peste suína africana. Para ele, o desafio agora é ampliar a presença brasileira em novos destinos.

Segundo o presidente da ABPA, países da Ásia, da África e do chamado Sul Global devem responder por boa parte da expansão do consumo de proteína animal nos próximos anos. A entidade projeta que o setor poderá crescer entre 3% e 3,5% ao ano, sustentado pela competitividade brasileira e pela abertura de mercados.

Neivor Canton, diretor-presidente da Aurora Coop, fez avaliação semelhante. Para ele, o avanço da produção chinesa precisa ser acompanhado de perto, mas não muda o principal desafio estratégico do Brasil.

“O Brasil não pode continuar sendo refém de um único mercado no cenário global”, afirmou.

Canton lembrou que outros grandes compradores já perderam relevância ao longo do tempo, como ocorreu com a Rússia no mercado de carne suína. Por isso, defendeu uma atuação mais intensa do país na negociação de acordos comerciais.

Na avaliação do executivo, ampliar a presença em mercados como Coreia do Sul, Japão e outros destinos será decisivo para reduzir riscos e abrir novas oportunidades à indústria brasileira.

Competitividade começa dentro da porteira

Para João Campos, presidente da Seara, a vantagem competitiva do Brasil continuará ligada à capacidade de evolução do próprio sistema produtivo.

“A demanda por proteínas de qualidade vai continuar, e o que eu acredito que nos fortalece é a evolução dos nossos modelos e sistemas”, afirmou.

Segundo o executivo, a integração entre produtores e indústria, os investimentos em tecnologia e a rapidez para responder às mudanças do mercado serão cada vez mais importantes para manter a competitividade brasileira.

“O que diferencia o Brasil é estar constantemente fazendo melhor hoje o que já fazia ontem”, disse.

Miguel Gularte também destacou a capacidade de adaptação do setor brasileiro, colocada à prova nos últimos anos pela pandemia e pelos conflitos internacionais. Para ele, a indústria demonstrou resiliência ao atender exigências sanitárias rigorosas e manter o abastecimento de mercados estratégicos.

“A melhor opção é vender várias vezes”, afirmou, ao defender uma estratégia baseada na diversificação de clientes e destinos. Segundo Gularte, vender para mais de 150 países reduz riscos e fortalece toda a cadeia produtiva, do produtor integrado à indústria exportadora.

Setor busca agregar mais valor às exportações

Outro ponto recorrente nos debates foi a necessidade de ampliar a participação de produtos industrializados na pauta exportadora.

Neivor Canton afirmou que o Brasil ainda concentra boa parte de suas vendas externas em produtos básicos e precisará agregar mais valor para fortalecer suas marcas no exterior.

João Campos seguiu a mesma linha e disse que a internacionalização não se resume a exportar. Para ele, construir marcas, desenvolver canais de distribuição e aproximar-se do consumidor final são etapas necessárias para ampliar a competitividade brasileira em mercados mais exigentes.

Gularte acrescentou que a maior semelhança entre hábitos de consumo em diferentes regiões do mundo cria oportunidades para as empresas brasileiras expandirem sua presença internacional, seja por meio de operações próprias, seja em parceria com companhias locais.

Brasil amplia protagonismo global

As discussões ocorreram durante o SIAVS, considerado pela ABPA o principal encontro das cadeias de aves, suínos, ovos, peixes de cultivo e bovinos da América Latina. Além de reunir produtores, indústrias, pesquisadores e fornecedores, o evento recebeu delegações internacionais e compradores de diversos mercados.

Para Santin, o crescimento do SIAVS acompanha o fortalecimento da proteína animal brasileira no cenário mundial.

“O SIAVS entrou definitivamente para o calendário das grandes feiras mundiais”, afirmou.

Mais do que apresentar projeções de produção e exportação, os debates do segundo dia mostraram que o próximo ciclo de expansão dependerá menos apenas do aumento da oferta e mais da capacidade do Brasil de conquistar novos mercados, agregar valor aos produtos e preservar a confiança construída ao longo das últimas décadas.

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