Setor-chave para os argentinos, agro pede regras mais previsíveis
jul, 15, 2025 Postado porSylvia SchandertSemana202530
Brasil e Argentina estão entre os maiores produtores e exportadores agrícolas do mundo. Apesar da proximidade geográfica e das semelhanças climáticas em algumas regiões, os dois países trilham caminhos distintos no desenvolvimento do agronegócio, tanto estrutural quanto macroeconomicamente.
No Brasil, o agro representa cerca de 23% do PIB em 2024, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) sobre 2024, somando R$ 2,72 trilhões. Essa força se apoia em escala produtiva, diversidade climática, inovação tecnológica e acesso relativamente amplo ao crédito rural. A agricultura incorporou práticas como o plantio direto, biotecnologia e soluções digitais, tornando-se referência mundial em eficiência produtiva tropical.
Mas desafios persistem. A infraestrutura logística é um gargalo, especialmente em áreas como o Matopiba, e a capacidade de armazenagem, entre 190 e 200 milhões de toneladas, não cobre toda a produção de grãos. A complexidade tributária e a pressão por sustentabilidade, interna e externamente, também exigem constante adaptação do setor.
“Retenciones”
Na Argentina, o agro também é pilar da economia. Segundo Fundación Agropecuaria para el Desarrollo de Argentina (FADA), respondeu por 23,1% do PIB em 2023, ou US$ 124,3 bilhões. Com solos naturalmente mais férteis nas regiões pampeanas, o país é protagonista nas exportações de soja (principal exportador de farelo), milho, trigo e carne bovina.
Esse desempenho, porém, é afetado por instabilidade macroeconômica. As exportações agrícolas sofrem com as “retenciones” — tributos que chegam a 33% na soja e 12% no milho — e com o acesso limitado a crédito, o que compromete investimentos e competitividade.
Nos últimos anos, surgiram múltiplos câmbios paralelos (blue, MEP, CCL e “dólar-soja”, entre outros), com diferenças de até 100% entre si, dificultando o repatriamento de recursos. “Sofríamos para obter autorização de compra de dólares, havia atrasos com fornecedores internacionais e necessidade de recorrer a cotações paralelas”, relatou um empresário ao Valor.
“Levará tempo para empresários e pessoas deixarem de manter o dinheiro fora da Argentina e investirem aqui”, disse Antonio Ceolin, CEO da Ceagro no Brasil e do grupo Ceolin na Argentina.
A estrutura de armazenagem também é um contraste: com capacidade entre 70 milhões e 80 milhões de toneladas para uma produção acima de 130 milhões, o país recorre amplamente aos silos bolsa — solução mais barata e amplamente difundida nas fazendas.
Em 2025, o governo Javier Milei anunciou reduções temporárias nas alíquotas de exportação e eliminou tributos para produtos de economias regionais. Apesar de atenderem a parte das demandas do setor, as medidas foram vistas como paliativas. O setor ainda cobra previsibilidade, regras claras e políticas de incentivo à armazenagem e exportação.
A jornalista viajou a convite da Kepler Weber
Fonte: Globo Rural
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