Petróleo e Gás

Superávit comercial do Brasil passa a depender mais das exportações de petróleo

fev, 06, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202606

Em 2025, a balança comercial do Brasil tornou-se mais dependente do petróleo bruto e de derivados de petróleo. O superávit desses itens alcançou US$ 29,6 bilhões no ano passado, um recorde histórico. O pico anterior havia sido registrado em 2024, com US$ 28,2 bilhões. O saldo de petróleo e derivados em 2025 respondeu por 43,3% do superávit comercial total do país, de US$ 68,3 bilhões, acima dos 38% observados em 2024.

Os números constam do Indicador de Comércio Exterior (Icomex), elaborado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), com base em dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic). As exportações de petróleo bruto têm sido o principal fator de aumento do superávit de petróleo e derivados, afirmou Lia Valls, professora da UERJ e pesquisadora associada do Ibre-FGV.

“Mesmo com preços menos favoráveis, o volume das exportações de petróleo bruto tem impulsionado o superávit de petróleo e derivados”, disse Valls. Ela acrescentou que os termos de troca — a relação entre os preços de exportação e importação — permaneceram relativamente estáveis nos últimos quatro anos.

Segundo dados da Secex, o preço médio de exportação do petróleo bruto caiu 9,8% em 2025 em relação ao ano anterior. Os volumes exportados seguiram na direção oposta. O Icomex aponta um aumento de 10,7% no volume embarcado de petróleo bruto em 2025 frente a 2024. Esse crescimento vem se acumulando ao longo da última década. Na comparação com 2016 — quando o saldo de petróleo e derivados se tornou positivo, com o avanço da produção no pré-sal —, o aumento chegou a quase 150% (148%).

Em 2025, a produção média anual de petróleo do Brasil atingiu o recorde de 3,77 milhões de barris por dia, segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP). A produção de gás natural também alcançou um recorde, com média de 179 milhões de metros cúbicos por dia. A produção combinada de petróleo e gás cresceu 12,7% em relação ao pico anterior, em 2023, e 13,3% frente a 2024.

Embora o aumento da produção tenha sustentado o crescimento dos volumes exportados de petróleo bruto, Valls observou que o saldo dos derivados permanece negativo. Em 2025, o déficit comercial de derivados de petróleo somou US$ 8,5 bilhões, valor semelhante ao registrado em 2023 e 2024.

“O Brasil se tornou um exportador líquido de petróleo bruto, com volumes expressivos e crescentes. Isso é bom para o país. O problema é que não agregamos valor ao produto. Não ampliamos a capacidade de refino e, por isso, não conseguimos aumentar a produção de derivados”, afirmou José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

Para Welber Barral, sócio da BMJ e ex-secretário de comércio exterior, a falta de capacidade de refino se destaca ainda mais em um país onde o transporte rodoviário tem papel dominante. Segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT), o modal rodoviário responde por 65% do transporte de cargas e 95% do transporte de passageiros no país.

Dados da ANP mostram que as importações de derivados de petróleo também aumentaram em 2025. As importações de gasolina A — combustível puro, sem etanol — cresceram 27,6% em relação a 2024, enquanto as importações de diesel A, também puro e sem mistura com biodiesel, avançaram 19,4%. Os números da Secex indicam ainda uma alta de 11% no volume das importações de derivados de petróleo em 2025 frente a 2024. Os preços recuaram 8,2%, o que ajudou a conter o déficit comercial de derivados.

A expectativa é que os volumes de produção de petróleo bruto continuem crescendo ao menos até o início da próxima década, e a possível exploração da Margem Equatorial pode estender esse horizonte. O argumento do governo para desenvolver a nova área, segundo Valls, é gerar recursos para financiar a transição energética. No entanto, como esses recursos seriam alocados ainda é uma questão em aberto.

Independentemente do que ocorra na Margem Equatorial, os dados atuais do comércio exterior reforçam a necessidade de diversificar ainda mais a pauta exportadora brasileira, destacou Valls. “Não podemos depender apenas do petróleo.”

Castro, da AEB, argumentou que o petróleo tem reforçado o perfil básico e de baixo valor agregado das exportações brasileiras. “A gente tira da terra, coloca no navio e manda embora”, observou, traçando um paralelo com a soja. A produção de soja também vem crescendo, com safra recorde em 2025, impulsionando os embarques. “Estamos exportando mais soja em grão e menos produtos processados, como farelo ou óleo.”

Considerando a pauta de exportação da soja brasileira — incluindo farelo, óleo, grão, farinha e molho —, a participação do grão in natura subiu de 76% em 2016 para 82,3% em 2025. O farelo de soja caiu de 20,4% para 15%, enquanto o óleo bruto de soja recuou de 3,2% para 2,5%.

Em 2025, o petróleo bruto foi o principal produto exportado pelo Brasil, respondendo por 12,8% do valor total das exportações. A soja veio logo atrás, com 12,5%. Juntas, as duas commodities representaram 25,3% das exportações do país.

“Estamos essencialmente dependentes de commodities agrícolas e de petróleo. Qualquer choque global que reduza os preços dessas commodities pode afetar negativamente o desempenho comercial do Brasil”, alertou Barral.

Os preços do petróleo, acrescentou Castro, são particularmente sensíveis, oscilando diante de qualquer conflito ou de decisões tomadas pela Opep+, que reúne os maiores produtores mundiais.

A concentração das exportações também vem acompanhada de uma crescente dependência da China. No ano passado, o país asiático absorveu 45% de todas as exportações brasileiras de petróleo bruto, enquanto os Estados Unidos — o segundo maior comprador — responderam por 10,6%. No caso da soja, a participação da China alcançou 79,3%.

Para Castro, a diversificação das exportações é ainda mais crucial no atual ambiente geopolítico, em que as relações comerciais estão sendo redesenhadas. Ele observou que uma eventual intervenção dos Estados Unidos na Venezuela poderia afetar as exportações brasileiras de petróleo, embora qualquer impacto deva ocorrer no médio ou longo prazo e dependa de um aumento efetivo da produção venezuelana.

Fonte: Valor International

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