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Trump parece excluir a Argentina de plano para importar carne bovina mais barata

ago, 28, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202636

Embora ainda existam dúvidas em torno do plano do presidente Donald Trump de importar carne bovina estrangeira para reduzir os preços no mercado interno, os anúncios oficiais do governo parecem estar restringindo a lista de países que poderiam fornecer o produto aos Estados Unidos.

Na sexta-feira, Trump afirmou que retiraria as tarifas sobre 300 mil toneladas de carne bovina importada e disse ter obtido o “compromisso” de um país ou empresa não especificado de que o produto seria vendido por um preço “25% abaixo dos valores atuais de mercado”.

O presidente formalizou a medida por meio de uma proclamação oficial divulgada na quarta-feira, na qual afirmou que o acordo ajudaria a “garantir que os norte-americanos trabalhadores possam alimentar a si mesmos e suas famílias”.

O governo não confirmou qual país ou quais países forneceriam o expressivo volume previsto no acordo, e algumas pessoas suspeitavam que a Argentina poderia estar entre os participantes. No entanto, a linguagem utilizada nas comunicações oficiais da Casa Branca e as conversas com especialistas do setor nos países exportadores para os Estados Unidos parecem excluir a Argentina, assim como vários outros possíveis fornecedores com os quais os EUA mantêm acordos tarifários ou de livre comércio.

“A Argentina não parece ser a fonte pretendida”

“A ampliação de 300 mil toneladas parece direcionada aos fornecedores elegíveis que se enquadram na cota mais ampla destinada a ‘outros países’”, afirmou Sylvain Charlebois, professor de política de distribuição de alimentos e diretor do Agri-Food Analytics Lab da Universidade Dalhousie, à Newsweek.

“A menos que o governo publique orientações adicionais, a Argentina não parece ser a fonte pretendida”, acrescentou.

A Casa Branca encaminhou a Newsweek para a ficha informativa sobre o acordo. A porta-voz Anna Kelly afirmou que Trump estava “cumprindo sua promessa aos consumidores ao reduzir os preços da carne bovina e, ao mesmo tempo, permitir o crescimento do rebanho bovino nacional”.

“A proclamação do presidente demonstra seu compromisso com a redução do custo dos produtos de uso cotidiano para o povo norte-americano”, declarou um porta-voz do Departamento de Agricultura à Newsweek. “Essa medida, adotada em um momento de demanda recorde por carne bovina, ajudará a melhorar a acessibilidade do produto depois que o rebanho bovino do país caiu para o menor nível em 75 anos durante o governo Biden.”

De onde Trump obterá a carne bovina?

“Não tenho autorização para falar sobre isso”, disse a secretária de Agricultura, Brooke Rollins, aos jornalistas na terça-feira, quando questionada sobre a origem das 300 mil toneladas de aparas magras de carne bovina que supostamente estariam a caminho dos Estados Unidos.

O presidente também se recusou a informar quais países participariam do plano.

“São alguns países”, afirmou Trump na sexta-feira. “Mas eles enviarão carne bovina da mais alta qualidade.”

Diante da ausência de informações, algumas pessoas especularam que a Argentina — país com o qual Trump propôs um acordo semelhante no ano passado — poderia fornecer parte da carne necessária ao plano. A possibilidade provocou forte reação de pecuaristas e de integrantes do Congresso de ambos os partidos.

Atualmente as exportações de carne bovina da Argentina aos Estados Unidos estão em franca expansão. Segundo o levantamento da Datamar, a Argentina exportou 4.459 TEUs no 1º semestre de 2026, uma alta de impressionantes 197,6% sobre o ano anterior.

Exportação de Carne Bovina aos EUA | Argentina | Jan 2023 – Jun 2026 | TEUs

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)

Entretanto, segundo uma ficha informativa divulgada pela Casa Branca juntamente com a proclamação de Trump, o acordo amplia o volume de carne bovina elegível para tarifas mais baixas, mas “não modifica nenhum compromisso relacionado à carne bovina para países que possuem acordo de livre comércio com os Estados Unidos e não se aplica a países com cotas específicas para carne bovina”.

Enquadram-se nessa definição alguns dos principais fornecedores dos Estados Unidos, como a Argentina, além de Canadá e México, estes últimos devido ao acordo de livre comércio USMCA.

“O governo Trump definiu a isenção tarifária para a importação de 300 mil toneladas de carne bovina, excluindo os países que possuem cotas tarifárias com acesso preferencial, como Uruguai, Argentina, Austrália e Nova Zelândia”, afirmou Fernando Herrera, presidente da Associação de Produtores Exportadores Argentinos, entidade comercial sem fins lucrativos que representa pecuaristas envolvidos na exportação de carne bovina.

A Canadian Cattle Association, entidade representativa dos produtores e frigoríficos do país, também informou à Newsweek que “Canadá e México não estão sujeitos a restrições sobre as importações de carne bovina nos Estados Unidos, portanto não há mudanças para nenhum dos dois países”.

Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores e Comércio da Nova Zelândia informou à Newsweek, por e-mail, na noite de quinta-feira, que o país possui “acesso a uma cota própria nos Estados Unidos para carne bovina e ainda não preencheu essa cota neste ano”. O porta-voz acrescentou que o país não foi procurado a respeito do plano.

A Austrália aparentemente estaria excluída por dois motivos: possui uma cota específica para carne bovina e também um acordo de livre comércio com os Estados Unidos.

“Não há mudanças diretas nas condições comerciais da Austrália como resultado da proclamação presidencial da noite passada”, afirmou Paul da Silva, gerente regional para a América do Norte da Meat & Livestock Australia (MLA), principal organização australiana de marketing e pesquisa do setor de carnes vermelhas.

Então, quem resta?

Os países aparentemente excluídos do plano estão entre os maiores fornecedores de carne bovina importada pelos Estados Unidos. O Brasil, principal fornecedor estrangeiro do país, porém, parece estar apto a participar.

Herrera afirmou à Newsweek que os termos do acordo fazem com que “seja praticamente certo que quase toda a oferta deverá vir do Brasil”, descrito por ele como “o país com maior potencial para aproveitar essa cota, pois possui tanto o volume quanto relações comerciais consolidadas nos Estados Unidos”.

“Talvez o Paraguai também possa participar, mas em menor escala”, acrescentou.

Colin Carter, professor emérito de economia agrícola e de recursos naturais da Universidade da Califórnia em Davis, também apontou o Brasil como a opção mais evidente e afirmou que a Nicarágua poderia fornecer parte das 300 mil toneladas.

“Parece que a JBS fará muitos negócios se essa for a interpretação dada à ordem de Trump”, afirmou David Anderson, economista do Departamento de Economia Agrícola da Universidade Texas A&M.

Anderson disse à Newsweek que o Brasil também poderia atender a esse pedido, considerando o rigoroso sistema de cotas tarifárias imposto pela China às importações de carne bovina em 2026.

Isso, porém, pouco contribuiu para reduzir as dúvidas que ainda cercam esse e outros aspectos do plano, cuja entrada em vigor está prevista para 1º de setembro.

“A ideia de que alguém venderá a carne com desconto de 25% levanta mais perguntas do que respostas”, afirmou Charlebois à Newsweek. Ele acrescentou que, a menos que o governo esteja subsidiando o distribuidor, “é difícil entender como isso funcionaria comercialmente”.

“O governo deveria identificar o intermediário e explicar quem está absorvendo essa diferença”, declarou.

“Na verdade, quem sabe?”, acrescentou Anderson. “É muita carne bovina em um período muito curto. Isso poderá provocar uma volatilidade significativa nos mercados atacadistas se esse volume realmente entrar no país.”

Fonte: Newsweek

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