União Europeia se prepara para reduzir tarifas acordadas com Trump e evitar nova disputa comercial com os EUA
jun, 15, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202625
A União Europeia está prestes a implementar os cortes de tarifas de importação acordados com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no ano passado, evitando, ao menos por enquanto, uma nova escalada do conflito tarifário entre os maiores parceiros comerciais do mundo.
O Parlamento Europeu votará nesta terça-feira uma legislação para cumprir a parte europeia do acordo comercial firmado há quase 11 meses no campo de golfe Turnberry, de Trump, na Escócia.
A montadora Volvo Cars, que produz a maior parte dos veículos destinados ao mercado norte-americano na Europa, começará a fabricar algumas de suas SUVs XC60 mais vendidas em sua fábrica na Carolina do Sul ainda este ano e iniciará a produção de um novo modelo híbrido na unidade até o fim da década.
Quinze associações empresariais representando montadoras europeias, além dos setores têxtil, de cosméticos, alimentos e bebidas, afirmaram que apoiar o acordo garantirá estabilidade para empresas que dependem do comércio transatlântico anual de US$ 2 trilhões.
No entanto, em comunicado, os grupos ressaltaram que este “não é o fim da conversa”. O próximo passo crucial será verificar se as novas tarifas norte-americanas previstas para entrar em vigor em 24 de julho refletirão exatamente os termos do Acordo de Turnberry.
As duas partes também precisam concordar em não reimpor tarifas mútuas sobre US$ 11,5 bilhões em produtos relacionados a uma disputa de décadas sobre subsídios à indústria aeronáutica. A suspensão dessas tarifas, válida por cinco anos, expira em 11 de julho.
O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, afirmou que o país cumprirá o acordo. Já Bernd Lange, presidente da Comissão de Comércio Internacional do Parlamento Europeu, demonstrou ceticismo.
“A decisão está na Casa Branca, nas mãos do presidente, e, portanto, ninguém sabe realmente o que vai acontecer”, afirmou.
Segundo ele, a ameaça feita por Trump na segunda-feira de impor tarifas de 100% sobre vinhos franceses poderia desestabilizar completamente o acordo de Turnberry.
Lange defende que a União Europeia esteja preparada, se necessário, para suspender partes do acordo. O bloco também poderia reativar suas medidas de retaliação contra tarifas impostas por Trump sobre € 93 bilhões (US$ 108 bilhões) em produtos norte-americanos, atualmente suspensas até 6 de agosto.
Não apenas tarifas: prioridades diferentes
Além das tarifas, Washington e Bruxelas precisam avançar em outros pontos do acordo, mas possuem prioridades bastante distintas.
Os Estados Unidos insistem que a UE trate de barreiras não tarifárias e questões regulatórias, incluindo preocupações com o imposto de carbono nas fronteiras europeias e as exigências para que empresas comprovem que commodities importadas não são provenientes de áreas desmatadas, além de auditorias relacionadas a direitos humanos e impactos ambientais nas cadeias de suprimentos.
A União Europeia já flexibilizou parte dessas regulamentações e ampliou prazos de adaptação. Ainda assim, a petrolífera ExxonMobil defende a revogação da legislação europeia de sustentabilidade corporativa e levou suas reclamações diretamente ao governo Trump.
Entre as críticas europeias estão tarifas superiores a 15% aplicadas pelos EUA a produtos que contêm metais, como máquinas de lavar, turbinas eólicas e motocicletas.
Trump chegou a ampliar a lista desses chamados “derivados metálicos” um mês após o acordo de Turnberry.
Embora alguns itens tenham sido posteriormente retirados da lista, a legislação europeia prevê que a Comissão Europeia suspenda as reduções tarifárias sobre produtos norte-americanos de aço e alumínio caso todas as tarifas não retornem ao patamar de 15% até o final do ano.
Fabricantes europeus de talheres e equipamentos para serviços de alimentação afirmam que as tarifas mais elevadas podem expulsá-los do mercado norte-americano ou reduzir ainda mais margens já apertadas.
Esperanças em acordo para aço, alumínio e bebidas alcoólicas
A União Europeia também deseja que os Estados Unidos substituam as tarifas de 50% sobre aço e alumínio por cotas livres de impostos e ampliem a lista de produtos isentos.
Produtores europeus de vinhos e destilados esperam estar entre os primeiros beneficiados.
Eles contam com apoio de fabricantes norte-americanos de bebidas alcoólicas, que defendem tarifa zero para ambos os lados. Segundo o setor, o comércio bilateral cresceu 450% entre 1997 e 2018, período em que vigorou um regime de tarifas zero por zero.
Esse sistema foi encerrado durante os conflitos tarifários do primeiro mandato de Trump. Chris Swonger, presidente do Conselho de Destilados dos Estados Unidos, afirmou que o risco de uma nova disputa continua pairando sobre a indústria.
A incerteza em torno das investigações da chamada “Seção 232”, mecanismo que permite a Trump impor tarifas por motivos de segurança nacional, também representa um risco e pode comprometer os termos do acordo.
Uma ameaça que perdeu força, porém, é a possibilidade de Trump anunciar novas tarifas de forma repentina, como chegou a sugerir em janeiro contra aliados europeus por causa da questão da Groenlândia.
Após a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de derrubar as tarifas globais impostas por Trump, o governo norte-americano passou a precisar realizar investigações formais antes de aplicar novas tarifas.
“Pode haver outras ferramentas que os Estados Unidos utilizem para fazer ameaças por razões políticas, mas não acredito que as tarifas serão esse instrumento, porque essa opção já não está mais disponível”, afirmou Ignacio García Bercero, pesquisador sênior do think tank Bruegel.
Fonte: Reuters
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