Acordo Mercosul-UE pode redesenhar indústria automotiva argentina, mas efeitos tendem a ser graduais
maio, 07, 2026 Postado porGabriel MalheirosSemana202619
A entrada em vigor do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia abre um novo horizonte para a indústria automotiva argentina, embora seus efeitos não devam ser imediatos nem homogêneos. Pelo cronograma de redução tarifária previsto no tratado, o setor foi tratado como uma das áreas mais sensíveis da negociação: os veículos seguem protegidos por um período prolongado, enquanto algumas autopeças e insumos industriais terão abertura mais rápida.
Automóveis de passeio, utilitários leves, picapes e várias categorias de veículos comerciais continuarão sujeitos, por anos, a níveis elevados de proteção tarifária. Já autopeças, determinados insumos industriais e alguns componentes ligados à tecnologia aparecem entre os segmentos com maior chance de liberalização antecipada.
No centro do acordo está um sistema de desgravação tarifária que organiza os produtos conforme o número de anos necessário para zerar os impostos de importação. Categorias como “0”, “4”, “7”, “8”, “10” e “15” definem ritmos distintos de abertura. No caso do setor automotivo, porém, uma das previsões mais relevantes é a categoria “15V”, criada especificamente para veículos considerados sensíveis pelo Mercosul.
Essa categoria abrange boa parte do mercado regional, incluindo carros de passeio com diferentes motorizações, veículos utilitários leves, picapes e alguns tratores leves. Para esses produtos, a tarifa-base — de 35% na Argentina e no Brasil — será mantida sem mudanças nos seis primeiros anos. Só a partir do sétimo ano começará a cair gradualmente, até chegar a zero no ano 15. Na prática, isso significa que os veículos europeus acabados não entrarão no Mercosul com abertura imediata e plena.
Para Argentina e Brasil, esse desenho preserva a proteção aos veículos prontos ao longo de boa parte da próxima década, em linha com a estratégia histórica do bloco de resguardar segmentos em que ainda existe produção local relevante.
O acordo, no entanto, prevê uma exceção importante dentro dessa mesma categoria. Para os veículos enquadrados em “15V”, uma cota anual de 50 mil unidades terá direito a uma redução de 50% da tarifa-base desde o início do acordo até o fim do oitavo ano. Essa cota será distribuída entre os países do Mercosul da seguinte forma: 32 mil unidades para o Brasil, 15,5 mil para a Argentina, 1.750 para o Uruguai e 750 para o Paraguai.
O mecanismo não elimina a tarifa, mas melhora as condições de importação em relação ao modelo atual. Ainda assim, seu efeito comercial tende a ser limitado tanto pelo tamanho da cota quanto pelas decisões das montadoras sobre quais modelos priorizar. Em termos práticos, o impacto mais visível no curto prazo pode ficar restrito à entrada de alguns veículos europeus dentro dessa cota, e não a uma queda generalizada de preços no mercado.
Para as montadoras instaladas na Argentina, o principal valor do acordo talvez esteja menos nas vendas imediatas e mais no seu potencial como argumento estratégico diante das matrizes globais. Em nota, a Associação de Fábricas de Automotores (Adefa) afirmou que o tratado pode funcionar como uma ponte entre as subsidiárias locais e os centros globais de decisão.
Do ponto de vista industrial, a expectativa é que um marco comercial comum com a União Europeia possa melhorar a posição das filiais argentinas na disputa interna por futuros projetos de investimento. Isso não garante novos planos de produção, mas pode aumentar a previsibilidade em um setor marcado por ciclos longos de investimento e decisões de alocação definidas globalmente.
No caso dos veículos eletrificados, a abertura será mais lenta do que se poderia supor. Híbridos e elétricos manterão tarifa de 25% nos cinco primeiros anos. Depois disso, as alíquotas cairão em etapas, chegando a zero apenas no ano 18. Para os veículos movidos a hidrogênio, o calendário é ainda mais extenso: a tarifa-base será mantida até o sexto ano, depois haverá uma redução parcial, e a eliminação total só ocorrerá no ano 25.
Nos veículos comerciais pesados, o cenário é mais restritivo. Ônibus, caminhões, chassis e cavalos mecânicos aparecem em várias linhas tarifárias classificadas na categoria “E”, ou seja, fora das preferências do acordo e submetidas ao regime atual.
Para picapes e utilitários leves, o quadro é mais misto. Alguns produtos entram em cronogramas longos de redução tarifária, enquanto outros se enquadram na categoria “15V”. Em tese, isso abre uma oportunidade futura para a Argentina, cuja indústria vem se especializando justamente em picapes e veículos comerciais, com operações como Toyota em Zárate, Ford e Volkswagen em Pacheco, além de Stellantis e Renault em Córdoba.
Qualquer tentativa de ampliar exportações para a Europa, porém, dependerá de muito mais do que a tarifa. As picapes produzidas na Argentina ainda precisariam atender às regras de origem, exigências técnicas e ambientais, normas de segurança, processos de homologação e, sobretudo, à estratégia global de produção de cada montadora. Hoje, muitas fabricantes já têm plataformas industriais alocadas em outras regiões e estruturas desenhadas para abastecer mercados específicos. O acordo melhora o ambiente, mas não garante por si só novos destinos de exportação.
Onde os efeitos podem aparecer antes é no segmento de autopeças. Diferentemente dos veículos prontos, muitos componentes entram em cronogramas mais curtos de redução tarifária. É o caso de insumos industriais, partes elétricas, baterias, pneus, componentes de carroceria, sistemas de segurança, itens de transmissão e outros elementos centrais para a fabricação de veículos.
O tratado chega em um momento em que a indústria automotiva argentina deixou de ter presença mais diversificada em todos os segmentos e passou a se concentrar cada vez mais em picapes médias e veículos comerciais. Essa especialização sugere que o acordo não deve ser lido apenas como uma abertura comercial, mas como parte de uma discussão industrial mais ampla: o que produzir, para quais mercados, com qual nível de conteúdo local e sob quais condições de competitividade.
Nesse sentido, o impacto potencial para a Argentina pode ser dividido em duas etapas. No curto prazo, as mudanças mais visíveis tendem a vir da cota de veículos com tarifa reduzida e de ajustes em autopeças e insumos industriais. No horizonte mais longo, a questão decisiva será saber se o país conseguirá usar o acordo para atrair investimentos, fortalecer seu perfil exportador e ganhar espaço nas cadeias globais de valor.
Fonte: La Nación
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