Indústria de café americano diz que “não sobrevive” sem café brasileiro
maio, 22, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202621
“Sem o café brasileiro, não existe mercado de café americano.” A declaração foi feita por Bill Murray, presidente da National Coffee Association (NCA), entidade que representa importadores e empresas do setor cafeeiro nos Estados Unidos. Em entrevista ao Valor Econômico, durante o Seminário Internacional do Café, em Santos, na quinta-feira (21), ele afirmou que o café brasileiro “é essencial para todas as empresas de café dos Estados Unidos”.
Murray, que se uniu aos exportadores brasileiros nos esforços para reverter as tarifas impostas pelo governo de Donald Trump, disse que a ausência do café brasileiro nos blends disponíveis aos consumidores americanos elevaria os preços no mercado local e tornaria o consumo de café inviável no país.
“Não conseguimos sobreviver sem o café brasileiro, sua alta qualidade e seu preço competitivo”, acrescentou.
A imposição de uma tarifa adicional de 40% sobre o café brasileiro em julho de 2025 aumentou os custos para os importadores e provocou queda nas exportações brasileiras para o mercado americano. Em novembro, o café foi incluído em uma lista de produtos isentos da sobretaxa pelo governo dos EUA, mas as vendas brasileiras para o país ainda não se recuperaram.
Confira a seguir a queda nas exportações de café brasileiro aos EUA, através dos dados de movimentação de contêineres obtidos pela Datamar:
Exportação de café aos EUA | Jan 2023 – Mar 2026 | TEUs
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
Na visão de Murray, o comércio de café brasileiro com os Estados Unidos pode eventualmente retornar aos níveis observados antes da imposição das tarifas. Em abril deste ano, os Estados Unidos continuaram sendo o principal destino das exportações brasileiras de café, segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé). Ainda assim, o volume embarcado caiu 19,52% em relação ao mesmo mês de 2025, passando de 561 mil sacas para 451.506 sacas de café.
Nos quatro primeiros meses do ano, os Estados Unidos foram o segundo maior comprador de café brasileiro, atrás da Alemanha. Os embarques para os EUA recuaram 41,46% no período, de 2,373 milhões de sacas para 1,389 milhão de sacas.
“Precisamos do café brasileiro. Estou muito otimista de que veremos, sim, mais exportações”, afirmou Murray.
Além do café verde, o café torrado e moído, assim como produtos descafeinados, também foram incluídos na lista de isenção. O café solúvel brasileiro, porém, continua sujeito às tarifas. Entidades do setor no Brasil e nos Estados Unidos pressionam para que o produto também seja incluído na isenção.
“Muitas pessoas nos Estados Unidos consomem café instantâneo e estão preocupadas com a situação econômica. Se ele ficar mais caro, será mais difícil para os americanos comprá-lo”, disse. “O café solúvel também é um insumo importante para a indústria de bebidas prontas para consumo em diferentes formulações. Está claro que precisamos de uma isenção.”
Murray também destacou os esforços conjuntos entre importadores americanos e exportadores brasileiros para promover o café brasileiro nos Estados Unidos. Segundo ele, em parceria com o Cecafé, a associação apresentou o que descreveu como argumentos sólidos às autoridades americanas em favor da retirada da sobretaxa.
Enquanto o governo dos EUA impôs tarifas ao Brasil, também abriu uma investigação com base na Seção 301 da legislação comercial americana, questionando o que considera práticas comerciais irregulares. “Temos argumentado de forma consistente que, sem isenções para o café brasileiro, os custos subirão, o que pode alimentar a inflação nos Estados Unidos”, ressaltou.
Durante um painel no seminário, Murray observou que a primeira rodada de tarifas de importação impostas pelo governo Trump foi considerada ilegal pela Suprema Corte dos Estados Unidos. Ele alertou, porém, que a posição da corte não elimina o risco de novas tarifas.
Atualmente, uma tarifa global temporária de 10% sobre importações para os Estados Unidos continua em vigor e deve expirar em julho. Murray disse acreditar que a Casa Branca já prepara novas medidas para continuar utilizando tarifas como ferramenta política.
“Temos visto a forma como ele [Trump] usa tarifas, e faz isso de maneira muito pouco ortodoxa. Esta não é uma situação normal, e isso não vai mudar. Trump vê as tarifas como uma arma e fará o que acredita que deve fazer”, afirmou.
Murray também defendeu esforços para educar os consumidores americanos e combater a desinformação sobre o café em geral e o café brasileiro em particular. “Não basta dizer que o café brasileiro é sustentável. É preciso provar. Precisamos de informações e estatísticas consolidadas para pensar em mensagens educativas”, disse.
Fonte: Valor International
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