Setor marítimo recalcula rota com tarifas e tensões geopolíticas
jun, 06, 2025 Postado porDenise VileraSemana202523
A indústria marítima global e a cadeia de suprimentos ligada a ela enfrentam os efeitos das tensões geopolíticas internacionais e das tarifas impostas ao comércio pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Os temas estiveram no centro dos debates de uma das principais feiras do setor na Europa, a Nor-Shipping, realizada a cada dois anos em Oslo e Lillestrøm, na Noruega, e que termina nesta sexta-feira (6).
Representantes de empresas com sede nas Américas, Europa e Ásia manifestaram preocupação a respeito dos impactos das políticas tarifárias da Casa Branca sobre o desenvolvimento das atividades e destacaram a importância de expandir as parcerias comerciais nesse contexto. O setor marítimo movimenta 80% do comércio mundial e as medidas protecionistas do governo americano podem impactar o transporte transoceânico, reduzindo preços do comércio e pressionando o frete.
Na Noruega, país com apoio histórico à indústria offshore do Brasil, os armadores começaram a rever as previsões para os próximos anos devido ao aumento da incerteza com as tarifas anunciadas pelos Estados Unidos desde que Trump tomou posse. “Ainda não vimos grandes efeitos da situação geopolítica, mas a incerteza tomou conta da nossa indústria”, disse ao Valor o diretor-executivo da Associação de Armadores Noruegueses (NSA, na sigla em inglês), Knut Arild Hareide.
Em abril, o governo Trump decidiu reduzir as taxas portuárias que seriam aplicadas a navios construídos na China, após forte reação da indústria marítima. Cerca de 45% dos navios operados por empresas norueguesas são construídos na China, segundo Hareide. Mesmo com a suavização da proposta original de Trump, que previa tarifas de até US$ 1,5 milhão por escala de navio, o cenário permanece desafiador para os armadores.
“Em janeiro, nós perguntamos aos nossos membros quantos navios eles estavam planejando construir nos próximos cinco anos, e eles haviam dito 250. Se eu perguntar a eles hoje, esse número será menor devido às incertezas nos mercados”, disse o executivo, que anteriormente era diretor geral de transporte marítimo e navegação da Autoridade Marítima Norueguesa (NMA).
No Brasil, cerca de 95% das transações comerciais são feitas por via marítima, segundo a secretaria nacional de hidrovias e navegação. As mensagens da Casa Branca são acompanhadas com atenção, principalmente por companhias que atuam na navegação de longo curso. No apoio offshore, que representa parte relevante do mercado brasileiro, os efeitos do tarifaço americano se somam aos impactos das guerras, na medida em que influenciam o preço do petróleo.
“Ainda que a gente não veja impactos para as empresas que atuam no Brasil no curto e médio prazo, os efeitos de longo prazo estão no nosso radar”, afirmou o secretário nacional de hidrovias e navegação, Dino Batista, que representou o ministério de Portos e Aeroportos na Noruega. “Essas idas e vindas dificultam muito as decisões para as empresas. A gente percebe uma preocupação sobre essas decisões que, no fim, vão impactar novas rotas e novos investimentos.”
Durante a semana, executivos também chamaram atenção para os possíveis impactos das decisões americanas sobre o ritmo da descarbonização da frota marítima. Trump é crítico do multilateralismo e pretende retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris, assim como fez no primeiro mandato (2017-2021). O tema é especialmente crítico neste momento em que o setor discute como acelerar investimentos na descarbonização para atender às exigências da Organização Marítima Internacional (IMO, em inglês).
A IMO aprovou, em abril, a precificação de emissões para a navegação. As regras devem ser formalmente adotadas em outubro deste ano para entrarem em vigor a partir de 2027.
O presidente da americana Cargill Ocean Transportation, Jan Dieleman, foi quem demonstrou mais preocupação sobre os rumos dos investimentos em transição energética. “O que há de diferente dessa vez não são apenas as rupturas, é a base da ruptura e o tamanho dela. A indústria está com dificuldades e há um pouco de paralisação na tomada de decisão neste momento”, disse Dieleman na conferência de abertura da Nor-Shipping, terça-feira (3).
O vice-presidente do DNB, maior instituição financeira da Noruega, Harald Serck-Hanssen, concordou que há uma lentidão e disse que há mais gargalos do que se esperava nesse processo. O DNB é um dos principais bancos do mundo em termos de estruturação de financiamentos para a indústria de navegação. Entre os clientes, estão empresas de navegação, petroleiras e fabricantes de equipamentos para a indústria de petróleo e gás.
Serck-Hanssen ponderou que os problemas devem ser pontuais: “A digitalização e a internet não pararam com a crise do pontocom em 1999”, argumentou. O executivo do DNB também disse que financiamentos para projetos de energia renovável têm crescido no mundo todo e devem seguir em alta devido ao fator econômico. “Antigamente esses projetos eram impulsionados pelo que vocês chamam de ‘greenwashing’. Hoje, eles são potencializados pela energia solar e eólica terem se tornado mais baratas que o carvão na maioria dos países e em Estados dos EUA. Então, faz sentido do ponto de vista comercial”, disse.
Ex-secretário de Estado americano e enviado especial dos EUA para o clima no governo Joe Biden, John Kerry disse que a lógica econômica por trás da transição energética não mudou. Ele encerrou a conferência de abertura da Nor-Shipping, na terça-feira, assim como na edição de 2023. “Quero enfatizar com a maior firmeza possível que a presidência dos Estados Unidos mudou, mas a lógica econômica por trás da transição, não”, disse.
Kerry também pediu que a indústria marítima veja a transição energética como uma oportunidade. “O transporte marítimo tem a oportunidade de liderar, de ajudar o mundo a abraçar todas as possibilidades dessa transição e pode servir de exemplo para o resto do mundo.”
Fonte: Valor Econômico
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